POESIAS

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Gêneros da Poesia Popular
Francisco Linhares e Otacílio Batista

>> Sextilha
>> Sete Linhas ou Sete Pés
>> Moirões
>> Moirão de Sete Pés
>> Moirão Trocado
>> Moirão que Você Cai
>> Moirão Voltado
>> Décima
>> Martelo Agalopado

 

Entre as criações dos poetas clássicos, que vieram a ser usadas pelos nossos cantadores, estão a Quadra, a Décima, a Sextilha em decassílabo com rimas cruzadas, e sua variante.

A Sextilha com rimas cruzadas originou-se da Oitava de Ariosto, estilo que Sá de Miranda (irmão de Mem de Sá), introduziu em Portugal, no século XVI, e que possibilitou a Camões realizar sua imortal obra "Os Lusíadas".
Contando-se com os gêneros mais usados, com os de pouca utilização, ou com os que se encontram completamente abandonados para o improviso, a "Poesia Popular" possui trinta e seis modalidades, número verdadeiramente espantoso, que vem, através dos tempos, demonstrar o grande poder criativo dos nossos bardos
matutos.

Até à época da famosa peleja de Francisco Romano Caluete com Inácio da Catingueira, o estilo preferido pelos cantadores era a Quadra. Após isso, apareceu a Sextilha, pertencente à família dos setessílabos, modalidade essa usada, não só nos grandes debates, mas, também, na abertura de qualquer programa de viola. "É a Deusa inspiradora dos poetas repentistas". Faremos, a seguir, um estudo dos principais gêneros usados pelos nossos violeiros.
 

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Sextilha

Talvez, por ser mais fácil, seja o gênero preferido pelos nossos repentistas, principalmente no início das apresentações. A Sextilha é uma estrofe com rimas deslocadas, constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação. Na Sextilha, rimam as linhas pares entre si,
conservando as demais em versos brancos. Leandro Gomes de Barros, grande escritor da Literatura de Cordel, filho de Pombal, Estado da Paraíba, escreveu:
 


Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.
Outro exemplo que daremos é o do ceguinho anônimo, que,

após a morte de sua desventurada mãe e guia,

chorou, com os olhos d'alma, seu infortúnio:

Já tive muito prazer,
Hoje só tenho agonia!
Não sinto porque sou cego,
Eu sinto é falta do guia!
Quando mamãe era viva,
Eu era um cego que via!
Ou, ainda, a de Francisco Pequeno, repentista paraibano, nesta inteligente análise:

Uma morrinha no gado
É derrota em fazendeiro,
E um cavalo ruim
derrota dum vaqueiro!
A derrota do país
É dever no estrangeiro!
 

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Sete Linhas ou Sete Pés

No início do século atual, o Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador fez uma adaptação à Sextilha, criando o estilo de sete versos, também chamado de sete linhas ou de sete pés, rimando os versos pares até o quarto, como na Sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto. Exemplifiquemos com o próprio criador do gênero:
 


Amigo José Gonçalves,
Amanhã cedinho, vá
A Coatis, onde reside
Compadre João Pirauá;
Diga a ele dessa vez,
Que amanhã das seis a seis,
Deus querendo, eu chego lá!
José Duda do Zumbi (Manoel Galdino da Silva Duda), no ocaso da vida, com a experiência da idade, disse para José Miguel, jovem companheiro, com quem duelava:

Fui moço, hoje estou velho!
Pois o tempo tudo muda!
Já fui um dos cantadores
Chamado Deus nos acuda ...
Este que estão vendo aqui
Foi Zé Duda do Zumbi!
Hoje Zumbi do Zé Duda!
 

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Moirões

Dentro da contextura da Poesia Popular, o Moirão tem sido o gênero a sofrer grandes variações ao longo do tempo. "É uma modalidade, onde os cantadores se revezam dentro da mesma estrofe. No século passado, o Moirão em quintilha substituiu o Moirão de seis versos, ambos em desuso. No Moirão de seis linhas, um Cantador fazia dois versos, o outro intercalava com dois, e o iniciante fechava a estrofe. Vejamos um Moirão de seis linhas, cantado por Romano e Inácio:
 


I Seu Romano, estão dizendo
Que nós não cantamos bem!
R Pra cantar igual a nós,
Aqui, não vejo ninguém!
I E o diabo que disse isto
É o pior que aqui tem!
No Moirão de cinco versos, que veio depois do de seis, havia um revezamento dos cantadores, nas duas linhas iniciais da estrofe, cabendo ao primeiro os três últimos versos para o fechamento da estância. Do encontro entre os paraibanos Romano Elias da Paz e Francisco Pequeno, colheu-se:

F.P. No Mourão não deixo nó!
R.E. O meu eu lavro de enxó!
F.P. Colega, estou pesaroso ...
No recinto primoroso,
Sei que fico a cantar só!
 

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Moirão de Sete Pés

O Moirão de sete pés é o mais usado atualmente. Formado por uma estrofe de sete linhas, cabendo, ao iniciante, a formação de cinco versos, isto é, os dois primeiros e os três finais; enquanto a cargo do segundo cantador ficam os versos de ordem três e quatro. Os pernambucanos Agostinho Lopes dos Santos e José
Bernardino de Oliveira assim iniciam um duelo:
 


A.L. Não vã você achar ruim
Este Mourão a doer!
J.B. Eu acredito, Agostinho
Naquilo que posso ver!
A.L. Companheiro, não se gabe,
Que a pessoa que não sabe,
Agrava a Deus sem querer!
Esse gênero pode ser cantado por três violeiros. Pedra Azul inicia:

Vou dar começo à questão
Pra ver quem ganha no fim!
Canhotinho, referindo-se a Severino Pinto, que tomava parte da porfia, foi mais agressivo:

Eu morro e não tenho medo
Dum Pinto pelado assim!
Pinto, que não perdoa, finalizou violento:

Sou pelado, sem canhão,
Por causa de um beliscão
Que tua mãe deu em mim!
 

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Moirão Trocado
 

A diferença deste gênero para o anterior está exclusivamente no aparecimento de palavras que se alternam nas quatro primeiras linhas da estância. Lourival Batista e Severino Pinto dão uma demonstração deste estilo:
 

L. Eu, da graça, faço o riso,
E, do riso, faço a graça!
P. E da massa, faço o pão,
E do pão, eu faço a massa!
L. Você desgraçou a peça:
Que u'a misturada dessa
Não há padeiro que faça!
 

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Moirão que Você Cai

 

É um gênero muito apreciado, com versos de sete sílabas, como nos demais, onde as estrofes aparecem com doze linhas, havendo quatro versos comuns a elas: terceiro, sexto, nono e décimo segundo. O iniciante é responsável pela formação dos versos: primeiro, segundo, terceiro, sétimo, oitavo, décimo, décimo primeiro e
décimo segundo. Ficando os demais a cargo do parceiro intercalante. Apreciemos, com Lourival e Otacílio, um Moirão que você cai:
 


L. Meu irmão, a hora é esta,
De travar-se um desafio!
Lá vai uma, duas e três ...
O. Mas, em luta eu não confio
Porque desanima a festa!
Lá vai quatro, cinco e seis ...
L. Meus versos ninguém detesta
Porque desafio distrai!
O. Cuidado que você cai...
L. Caio tomando sorvete,
Você levando cacete,
Se for por dez pés lá vai!
 

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Moirão Voltado
 

Gênero relativamente novo, com estrofe de treze versos de sete sílabas, em que os preliantes vão se alternando até a oitava linha, para, em seguida, unirem suas vozes, como em coro, neste estribilho:
 


Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Em seguida, repetem a oitava linha com o estribilho acima. Para melhor compreensão, imaginemos os cantadores A e B:

A. Tudo, neste mundo, volta.
B. Com você, combino eu!
A. Volta o rico e o plebeu;
B. Volta quem prende e quem solta ...
A. Volta a paz e a revolta;
B. Volta o sim e volta o não!
A. Volta até Napoleão
B. Que há tempo está sepultado...
A/B Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Que há tempo está sepultado...
Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
 

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Décima

Embora de origem clássica, é a Décima um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a receber a denominação de glosa. Como o próprio nome diz, Décima é uma estrofe ou estância de dez versos de sete sílabas, assim distribuídos: o primeiro, rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. De Antônio Ugolino Nunes da
Costa (Ugolino do Sabugi), primeiro grande Cantador brasileiro, extraímos duas estrofes, em Décima, de seu famoso poema "As obras da Natureza":
 


As obras da Natureza
São de tanta perfeição,
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza!
Para imitar a beleza
Das nuvens com suas cores,
Se desmanchando em louvores
De um manto adamascado,
O artista, com cuidado,
Da arte, aplica os primores.

Brilham, nos prados, verdumes
De um tapete aveludado;
Brilha o rochedo escarlado,
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam tais gumes,
Que a gente, os observando,
Vê como que se alongando,
Sumir-se na imensidade ...
Nossa visibilidade
os perde se está olhando.

O mote é uma sentença ou pensamento, formado de um ou dois versos, com que se finalizam as estrofes. Os primeiros motes eram dados em Quadra, ficando o poeta obrigado a improvisar quatro Décimas, contendo cada uma, pela ordem, um verso ou linha da Quadra. Com a evolução, o mote passou de quatro versos para dois, e, mais raramente, usa-se o de um verso. O mote de duas linhas pode-se apresentar de duas maneiras. Na primeira, já em desuso, a quarta linha da estrofe é formada pelo primeiro verso do mote e a décima pelo segundo. Exemplifiquemos com o mote dado pelo Dr. Raimundo Asfora, descendente de árabe, ao companheiro Otacílio
Batista:
 


Tenho n'alma as tatuagens
Da minha origem cigana.
Apreciemos a técnica do valoroso artista, na formação das estrofes:

Fui criado entre as miragens,
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n'alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!

Os antigos personagens,
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n'alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade Soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!
Na segunda, os versos do mote ficam conjugados, isto é, formam as linhas nove e dez da estrofe. Vejamos a Décima com este final comovente:

Ao pé do monte Calvário,
Jesus chorava e gemia!

Junto de dois malfeitores,
Via-se um pobre moribundo:
Era o Salvador do mundo,
Senhor de todos senhores!
Refúgio dos pecadores,
De quem sofre nostalgia!
Se quisesse, sairia
Daquele estado precário:
Ao pé do monte Calvário,
Jesus chorava e gemia!
O mote de uma linha é raramente usado. Seu único verso fecha a estrofe.
Tratemos, agora, dos gêneros variantes da Décima: Martelo agalopado, Galope à beira-mar e a Parcela.
 

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Martelo Agalopado

 

O Martelo atual, criação do genial violeiro paraibano Silvino Pirauá Lima, é uma estrofe de dez versos, em decassílabos, obedecendo à mesma ordem de rima dos versos da Décima. Todavia, sua denominação não vem do fato de ser empregado como meio de os contadores se martelarem durante suas pugnas. Sua significação está ligada ao nome do diplomata francês Jaime de Martelo, nascido na segunda metade do século XVII, que foi professor de literatura na Universidade de Bolonha, portanto, o criador do primeiro estilo. Jaime de Martelo suprimiu duas linhas finais da Oitava de Ariosto, ou Oitava camoniana, formando o que se denominou de Martelo
cruzado, isto é, no Martelo antigo a primeira linha rima com a terceira e a quinta; a segunda, com a quarta e a sexta. O exemplo deste gênero está na estrofe do paraibano José Camelo de Meio Rezende:
 

O orgulho nasceu em noite escura,
E é filho da triste ignorância,
Ao descer o seu corpo à sepultura,
Cai-lhe verme por cima, em abundância,
E seu todo se torna uma figura,
Que nos causa a maior repugnância.
Depois, como variante, apareceu o Martelo com rimas destacadas, também denominado de Martelo solto ou de Sextilha em decassílabo. O diplomata brasileiro Francisco Otaviano de Almeida Rosa utilizou-se deste gênero para cantar suas "Ilusões da Vida":

Quem passou pela vida em branca nuvem,
Num plácido repouso, adormeceu;
Quem não sentiu o trio da desgraça,
Passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu.
Feitas essas considerações sobre os Martelos de seis versos, mostraremos o estilo atual, variante da Décima, criação do violeiro Silvino Pirauá Lima, conforme estrofe do poeta lira Flores, citada pelo Dr. Ariano Suassuna, num trabalho sobre os cantadores:

Quando as tripas da terra mal se agitam,
E os metais derretidos se confundem,
E os escuros diamantes que se fundem,
Da cratera ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
Grossas bagas de ferro incendiado,
Em redor, deixam tudo sepultado
Só com o som da viola que me ajuda,
Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
Eu cantando Martelo agalopado.
Esse gênero belo e difícil via crucis dos fracos repentistas, é empregado não só nos grandes debates, mas nos trabalhos escritos, em geral.

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